Imagem capa - Sobre maternidade e vida profissional - um desabafo por Bárbara Brandão

Sobre maternidade e vida profissional - um desabafo



Ora bem... nem sei muito bem por onde começar. Talvez seja melhor começar por falar um pouco sobre mim...


Sou mãe de 2 filhos, a Violeta que tem 11 anos e o Simão que tem 3. Para mim os meus filhos são a coisa mais importante da minha vida, ponto final. 

Sou maquilhadora e luto, há mais de 15 anos, por esta profissão que adoro. Ser feliz e bem sucedida no meu trabalho é muito importante para mim. Tenho o desejo de ser melhor, de fazer bem feito, de ser perfeita. Sempre quis dedicar-me a sério ao meu trabalho e nunca o consegui fazer.


Tenho um filho ainda pequenino e muito exigente de 3 anos, muito desejado. Sempre soube e disse que ia viver a gravidez e os primeiros anos dele com toda a minha dedicação por saber que não voltarei a passar por esta experiência. Aos 3 meses dele aceitei um trabalho em cinema que não podia dizer que não. Eu amamentava-o, ele era completamente dependente de mim, nunca foi aquele bebé que ficava deitadinho na cama sossegado, passou quase 1 ano sem dormir e os pais também. Aceitei o trabalho e durante 3 semanas ele ia comigo de carro para Guimarães muito cedo. Passava o dia no camarim, eu tinha de o manter alimentado, cuidado e, principalmente, em silêncio para não perturbar as filmagens. Ao mesmo tempo que coordenava a caracterização do filme. Se esta fase já é difícil para algumas mães que ficam em casa imaginem passar 12horas a trabalhar com um bebé. Ao fim da 3a semana não aguentei mais e conseguimos simplificar um pouco as coisas. Não me arrependo da minha decisão, superei-a e fiquei orgulhosa. Continuei a amamentar por muitos meses mais. O filme não ficou perfeito mas orgulho-me do que consegui. 




Quando a Violeta nasceu eu tinha pouco trabalho mas mesmo assim ela passou os primeiros 2 anos de vida comigo. Foi comigo trabalhar muitas vezes. Lembro-me de andar carregada com as malas de maquilhagem, carrinho de bebé, parque, comidas, fraldas... não tinha quem me ajudasse, financeiramente não podia pagar a alguém para me ajudar mas nunca quis que os meus filhos perdessem por eu trabalhar e nunca quis que o meu trabalho fosse prejudicado por eu ser mãe.


Sou uma mãe praticamente sem rede de apoio. Nunca fui capaz de deixar os meus filhos na escola até tarde para ter tempo para mim, sou eu que trato de tudo relativo a eles, não tenho empregada em casa e sou eu que trato de tudo em casa, trabalho por conta própria em casa e nunca consegui organizar-me no meio de tudo o que tenho para fazer... acordo, trato das crianças, levo-os à escola (agora com covid tem horários diferentes, podia ser mais fácil mas não...), volto e tenho um caos caseiro para tratar, tento concentrar-me para trabalhar, tenho de ir às compras, daqui a bocado chega a Violeta para almoçar, tenho de cozinhar, arrumar a cozinha, andar atrás dela para que se dedique um pouco a estudar e não esteja sempre no telemóvel, tratar de roupa entretanto tenho de ir buscar o Simão, agora é que nunca mais há sossego nesta casa, tento trabalhar, atendo telefonemas com ele sempre aos gritos por trás, Violeta vai tomar banho, filhos que argumentam e não querem fazer o que eu digo, Simão pede para que brinque com ele, tenho de ir fazer o jantar, temos de comer, tenho de deitar o mais pequeno, arrumar a cozinha, tentar ter uns minutos para mim e... caio para o lado. O dia passou e não consegui fazer nada direito de início ao fim. Foi uma batalha e amanhã há mais, no dia seguinte idem, no dia seguinte idem... sem descanso, há anos...

Todo este esforço acumulado cansa, a falta de horas definidas para fazer as coisas cansa, ter tanta coisa para gerir cansa, ter sempre de me esforçar para ter trabalho cansa. Há anos que tenho 2 trabalhos quase sem pensar nisso e que me recuso a escolher um e abdicar do outro. Os anos vão passando, os filhos vão crescendo e supostamente começa a ficar mais fácil. Acontece que os mesmos anos também vão passando para mim, vão surgindo novos profissionais, mais novos, mais frescos, mais disponíveis, menos cansados... e é complicado. Esta gestão é difícil.




Estou a partilhar isto com vocês talvez numa tentativa de pedir desculpa pelos emails que demoraram a ser respondidos, por mal entendidos, por algumas escolhas que tive de fazer. Por não ter um instagram actualizado diariamente com informação super relevante e interessante. Por não ter atendido algumas noivas com toda a dedicação que eu gostaria de ter tido. Sei que não estive no meu melhor nos últimos anos mas agora que percebi isso quero mudar e fazer melhor. Estou a concentrar-me mais nas coisas, a trabalhar em mim, a aprender... crescer traz rugas e cabelos brancos (bastantes no meu caso) mas também traz coisas boas, maior entendimento das coisas. 


Agora que me sinto em paz por ter desabafado posso recomeçar mais uma vez!